Sinto o estalido de meus neurônios já fadigados.
Minhas juntas já parecem portas rangindo.
Olho meu reflexo no espelho:
Meus olhos, antes belos,
hoje estão escondidos entre tanta pele plissada.
Meu cheiro é de sabão e talco;
Minha expressão é de sabedoria.
Minhas mãos pálidas e minha pele flácida, fria.
A alvidez de meu cabelo traz consigo serenidade,
a lembrança pueril de quando minha mãe o escovava
e lhe prendia uma linda fita turquesa.
Estou perdendo toda minha melanina, minha queratina,
minha mocidade.
Antes senhorita, hoje senhora, sem hora.
Repito comigo mesma:
-Você sabia que a velhice iria chegar.
Toco nesse rosto estranho,
penso se fui quem eu realmente gostaria de ser,
realizei todos os meus sonhos?
Não sei vos dizer.
Meus netos sempre me perguntam se já fui criança,
se fui jovem um dia.
Eu apenas sorrio e respondo:
-Ainda sou.
Isso depende do "ponto de referência",
comparada ao planeta terra, sou um feto ainda.
Algumas coisas são complicadas de explicar,
a velhice é uma delas;
Alguns à temem e tentam evitá-la,
outros como eu, só aceitam e vivem felizes,
aguardando que as horas passem,
aguardando...
A última badalada.
LOCATELLI, Caroline
