1 de set. de 2020

O Gorfo Social

 

Indigente é gente
Gente indigesta
Indigerível para a sociedade que consome
E cospe a carne de pouco valor.
Carniceira de gosto exigente
Canibaliza a si
Mas não devora o intagrável 
Gorfa o indiligente.

LOCATELLI, Caroline

23 de abr. de 2020

Cafeína



Naquele dia não tinha café
A ausência me fez sentir um amargor
O gosto acre genérico
Eu precisava emancipar-me daquele vício 
Do conformismo
Então passei os dedos entre meus fios
E optei pelo abandono do que me prendia
A ausência me machucou,
Mas eu nunca gostei verdadeiramente do café.
Sempre foi pelas conversas
E não pela cafeína.





LOCATELLI, Caroline

31 de out. de 2017

Sendo

  A tarefa mais difícil que podem dar à um homem é se descrever. 
Quem sou eu? Eu não sei, sou um conjunto de tudo que já fiz, já fui muitas coisas que hoje não sou, já recebi diversos títulos que não me pertencem mais. Eu não sou, eu já fui, serei. Nossas células mudam totalmente a cada sete anos, não sou a Carol de sete anos atrás, mas também não sou mais a mesma que começou a escrever esse texto, no momento minhas mãos estão ligeiramente sujas com a tinta da caneta, antes eu era apenas uma representante Homo Sapiens do sexo feminino, escrevendo com seu polegar opositor, agora sou a Homo Sapiens que sujou as mãos por não ter total controle do polegar opositor. Uma pessoa não é uma porção de títulos dados por si ou por outra, cada pessoa é um indivíduo mais complexo, profundo e único do que simples adjetivos ou classificações. Sou uma dança de mudança. Tudo que reflete o passado não sou eu, esse próprio texto virou obsoleto, deixou de ser. A Carol é a Carol do agora, o agora escrito não é o agora lido, portanto eu me recuso a descrever a Carol que sou no momento, peço perdão, já deixei de ser.

24 de mai. de 2017

Sobre Anjos e Desistências



Um deles passou pela minha porta
Daqueles que tocam o chão com apenas uma perna
Apenas pensar neles nos leva ao inferno e nos conforta
Estes anjos perdidos na terra

Posso me perder no tempo para admira-la
Mas perto dela o que é o tempo?
Um sopro de vento pode ser um dia
E eu me perdendo a procura-la

Um vida se passa e eu nunca vou compreendê-la
Mas como poderia entender este ser
Que passa tão rápido por mim
Que me embebeda no mistério de sua natureza

A beleza que vejo ao abrir e fechar os olhos
É embalada pelo som de seu sorriso
Um sorriso de menina inocente
Tudo isto encontrado além do Paraíso

Mas a outra perna sempre toca ao chão
Este solo imundo e triste
Pra lembra-la que seus atos aqui são em vão
Cuja os castanhos sempre tem cinza no horizonte

Assim vive nesta terra este anjo
Ao menos é o que eu vejo, quando não me perco.
Assim vive este anjo
Ou pelo menos como estou ao tentar entendê-lo.



Anônimo
- 2012 -




25 de abr. de 2017

Padrões


Um amigo da faculdade me disse certa vez que a loucura é advinda do ato de identificar padrões onde outras pessoas não identificam.
Pois bem, seguindo essa lógica me assumo louca. Louca por tentar encontrar padrões nesse emaranhado que é a vida, na qual nada parece fazer sentido de início.
Um jovem desapareceu no Acre recentemente, ele deixou livros criptografados, além de enigmas pintados nas paredes de seu quarto. Muitos que acompanhanharam o caso o entitularam de gênio, um ser com inteligência superior, outros o identificaram como louco, mas ambos não trabalham com padrões?

Ao mesmo tempo, tenho um primo perecendo com um tumor maligno no cérebro, o tumor está comprimindo o cérebro dele e impedindo movimentos corporais, além de articulações de palavras.
Células que não foram divididas direito, padrões incorretos.
Mas ora, tudo isso para mostrar a vocês que aqui temos um padrão, as histórias não parecem ter ligação, mas vejam, ambos têm o mesmo sobrenome.
No meio de toda essa confusão temos um padrão, parece-me que finalmente algo faz sentido.
Ah a vida e seus padrões, agora  tudo parece tão lúcido.


Caroline, LOCATELLI

14 de mar. de 2017

Ainda menina


A alma de menina gritou
Um líquido viscoso e rubro escorria pelas suas pernas, ternas.
Ela não entendia aquilo,
não entendia como podia sangrar sem se machucar.
Pensava se Merthiolate resolveria,
mas onde estava a ferida?
Havia uma ferida?

Aquilo acontecia todo mês,
sangrava por uns quatro dias,
ferida pela idade, pela maturidade.
Pobre menina que não entendia.
O que lhe ocorria?

Suas pernas alvas viraram alvos
olhares masculinos lhe perseguiam.
Aquelas pernas antes corriam
corriam como se não houvessem obstáculos pelo caminho
Queriam fazer de suas coxas um ninho.

Ela brincava e pulava com os meninos,
subia em árvores,
fazia todo tipo de careta,
não se importava em brincar sem camiseta.

Mas agora, menina aflora,
Uma simples amostra de seu corpo afora,
desperta desejo, fazem-lhe todo tipo de cortejo.
Com seus lábios pintados de amora,
sua infância chora.
Querem lhe pegar.
Óh menina ingênua,
Querem-te nua
Óh menina
Que não conhece o pega-pega dos adultos,
que não entende seus pecados e insultos.




LOCATELLI, Caroline

13 de fev. de 2017

Dom Quixote de La Mancha

Será que sou maluco?
Avisto gigantes no horizonte 
Ninguém pode ver?
Perderam a sanidade ou sou eu que fantasio demais?
Talvez estejam todos loucos 
Todos tornaram-se realistas demais, loucamente realistas e sem graça.
Eu sou o único são!
Não é possível que ninguém perceba que aqueles gigantes estão disfarçados de moinho.


LOCATELLI, Caroline


1 de fev. de 2017

Olhos que te Crucificam

Sempre fui de me questionar sobre religiosidades, deuses, crenças, o sagrado.
Nenhuma religião dava-me  respostas plausíveis acerca do surgimento do universo e de todo o ser que nele habita.
A ciência dos humanos me atraiu, física, astronomia, biologia, química...
Essas eram crenças que me agradavam, com respostas verossímeis e escrituras sagradas comprovadas com a linguagem dos números.
Até que um dia eu vi algo que me atordoou.
Eu tive o vislumbre da besta fera.
Eu vi o demônio nos olhos do meu pai.
E ao ver o demônio, deixei de questionar a existência do divino.
Os roxos e hematomas em meu corpo me retornaram ao passado.
A religião de meu pai torna-se mais forte que a minha, a Patriarcal.


LOCATELLI, Caroline

23 de nov. de 2016

Sol Narciso

               

O sol em despedida reflete no lago,
encerra sua jornada
Aquece o lago com um afago
Um sol Narciso que adentra a água
Encantado com sua própria beleza
E no dia seguinte renasce da mesma
Com todo o seu calor, com todo o seu ardor.
O mesmo sol que quer ser o centro de um sistema, afunda em si.
Afunda o seu reflexo, seu reflexo retorcido
Sua autoimagem fracionada,
mas que o encanta, encanta os planetas, encanta os pescadores, interrompe suas remadas.
Todos param para vê-lo se pôr,
para vê-lo novamente se afundar no mar, e dar lugar à uma forma pálida.
E no dia seguinte novamente renascer, renovando aquilo que já estava morto.
Sol Narciso,
só te peço
Por favor
Não se afunde em seu autoamor.


LOCATELLI, Caroline

10 de nov. de 2016

No passado não existe saudade


Se o amanhã pudesse ser ontem
Que o futuro seja, fosse o passado
Rodopiariamos eternamente em sentido anti-horário.
Sempre fomos contra padrões,
Sugiro que nosso giro não seja diferente.




LOCATELLI, Caroline


8 de set. de 2016

Dia 31

Dia 31


Essa tal de Política
tão politicamente
Incorreta.

31 é dia de Golpe
Golpe na democracia
Golpe para ser Golpe não precisa ser Militar
Basta ferir nosso direito democrático.

O Golpe é pior quando vem disfarçado
Quando vem disfarçado de Salvação.

Esse é o problema da nação
poucas escolhas realmente estão na minha,
na sua mão.


 
LOCATELLI, Caroline

Postais de São Paulo

                                            Postais de São Paulo

Oi, como estão as coisas por aí?
Aqui em São Paulo está chovendo muito, não se deixe enganar pelo cartão postal, o sol brilhando é meramente ilustrativo. 
Faz tempo que o sol não aparece, 

você deve ter levado ele embora (alguém deveria te prender por esse crime                                             hediondo) foi-se e nos deixou apenas a garoa.



                                                  Um dia qualquer de Janeiro de 1942.

                                                                         Uma Pessoa Qualquer




              Postal não entregue, o destinatário não encontra-se mais no endereço. 

              -Agência dos Correios




Todos os amantes, as pessoas que já amaram de fato, 
provavelmente já sentiram o vazio da solidão, 
o vazio de não ter um postal entregue, 
ou de não obter um retorno. 
Quando todos os outros amores se vão, 

Vão-se junto com os postais
Um é posto, deposto
Um não se vai.
Um prevalece, entristece
É aquele postal devolvido, não entregue

Aquele postal não correspondido
O postal que postula seus sentimentos
O postal postergado.

Todo mundo tem esse postal
Todos se vão,
Mas esse postal, depois de posto ele fica.



LOCATELLI, Caroline 

11 de dez. de 2015

Saudações Saudade

Saudações Saudade


A Saudade me abraça
a-colhedora
Colhe minha alma
Colhe minhas lágrimas
Tentando me tirar das garras da Solidão, sua amiga de longa data.
Solidão me deixava mal,
era uma ingrata que me batia e me jogava no canto.
A Solidão me fez conhecer Lembranças, sua prima.
Lembranças me fazia sorrir,
me fazia chorar,
mostrava álbuns de fotografias e filmes antigos, de Momentos já passados.
Momentos, era uma banda de jovens que tocava o Agora, envelheceram precocemente e hoje são só Memórias.
Memórias é a irmã gêmea da Lembranças, ambas me fizeram feliz por um tempo, até a Solidão voltar e me arrastar para um beco escuro.
A Solidão me espanca,
A Solidão me estilhaça.
Aí vem a Saudade,
E ela me abraça.

LOCATELLI, Caroline