23 de nov. de 2016

Sol Narciso

               

O sol em despedida reflete no lago,
encerra sua jornada
Aquece o lago com um afago
Um sol Narciso que adentra a água
Encantado com sua própria beleza
E no dia seguinte renasce da mesma
Com todo o seu calor, com todo o seu ardor.
O mesmo sol que quer ser o centro de um sistema, afunda em si.
Afunda o seu reflexo, seu reflexo retorcido
Sua autoimagem fracionada,
mas que o encanta, encanta os planetas, encanta os pescadores, interrompe suas remadas.
Todos param para vê-lo se pôr,
para vê-lo novamente se afundar no mar, e dar lugar à uma forma pálida.
E no dia seguinte novamente renascer, renovando aquilo que já estava morto.
Sol Narciso,
só te peço
Por favor
Não se afunde em seu autoamor.


LOCATELLI, Caroline

10 de nov. de 2016

No passado não existe saudade


Se o amanhã pudesse ser ontem
Que o futuro seja, fosse o passado
Rodopiariamos eternamente em sentido anti-horário.
Sempre fomos contra padrões,
Sugiro que nosso giro não seja diferente.




LOCATELLI, Caroline


8 de set. de 2016

Dia 31

Dia 31


Essa tal de Política
tão politicamente
Incorreta.

31 é dia de Golpe
Golpe na democracia
Golpe para ser Golpe não precisa ser Militar
Basta ferir nosso direito democrático.

O Golpe é pior quando vem disfarçado
Quando vem disfarçado de Salvação.

Esse é o problema da nação
poucas escolhas realmente estão na minha,
na sua mão.


 
LOCATELLI, Caroline

Postais de São Paulo

                                            Postais de São Paulo

Oi, como estão as coisas por aí?
Aqui em São Paulo está chovendo muito, não se deixe enganar pelo cartão postal, o sol brilhando é meramente ilustrativo. 
Faz tempo que o sol não aparece, 

você deve ter levado ele embora (alguém deveria te prender por esse crime                                             hediondo) foi-se e nos deixou apenas a garoa.



                                                  Um dia qualquer de Janeiro de 1942.

                                                                         Uma Pessoa Qualquer




              Postal não entregue, o destinatário não encontra-se mais no endereço. 

              -Agência dos Correios




Todos os amantes, as pessoas que já amaram de fato, 
provavelmente já sentiram o vazio da solidão, 
o vazio de não ter um postal entregue, 
ou de não obter um retorno. 
Quando todos os outros amores se vão, 

Vão-se junto com os postais
Um é posto, deposto
Um não se vai.
Um prevalece, entristece
É aquele postal devolvido, não entregue

Aquele postal não correspondido
O postal que postula seus sentimentos
O postal postergado.

Todo mundo tem esse postal
Todos se vão,
Mas esse postal, depois de posto ele fica.



LOCATELLI, Caroline 

11 de dez. de 2015

Saudações Saudade

Saudações Saudade


A Saudade me abraça
a-colhedora
Colhe minha alma
Colhe minhas lágrimas
Tentando me tirar das garras da Solidão, sua amiga de longa data.
Solidão me deixava mal,
era uma ingrata que me batia e me jogava no canto.
A Solidão me fez conhecer Lembranças, sua prima.
Lembranças me fazia sorrir,
me fazia chorar,
mostrava álbuns de fotografias e filmes antigos, de Momentos já passados.
Momentos, era uma banda de jovens que tocava o Agora, envelheceram precocemente e hoje são só Memórias.
Memórias é a irmã gêmea da Lembranças, ambas me fizeram feliz por um tempo, até a Solidão voltar e me arrastar para um beco escuro.
A Solidão me espanca,
A Solidão me estilhaça.
Aí vem a Saudade,
E ela me abraça.

LOCATELLI, Caroline

16 de jun. de 2015

Caindo para Voar


Afundei-me em mim
Cai infinitamente como Alice.
Em um poço que parecia não ter fim
Cai por horas dentro do meu Eu,
dentro de mim.

Caia e livros via
Todos em prateleiras
Em fileiras.
Quem os escrevia?
Todos os livros tinham nomes como  título.
Nomes de pessoas que comigo tinham algum vínculo.
Os livros tinham espessuras proporcionais ao que eu conhecia de cada pessoa.
Todos os livros passando por mim
Fazendo tumulto, fazendo motim.
Enquanto eu estava indo.

C
    a
      i
        n
           d
              o

Cheguei em meu âmago, onde queria.
Estava viva.
Ao tomar conhecimento disso, sorria.
Encontrei uma mesa.
Nela havia uma enorme garrafa de vidro,
além de uma vela acesa.
Dentro do vidro,
borboletas de todas as cores de flores,
desesperadas debatendo-se em vão,
em tentativas frustradas de saírem
Saírem daquela prisão.

Preso a garrafa, havia um papel escrito: "LIBERTE-ME"
Hesitei antes de abrir,
por fim, soltei as borboletas.
Elas saíram, belas, voando em piruetas.
Percebi que o âmago era meu estômago.

E as borboletas voavam
alegres, eufóricas, calóricas.
Eu estava deliberadamente contente
Amando novamente.

LOCATELLI, Caroline

28 de mai. de 2015

Solidar


Só, nessa solidão sólida.
Solvente soluto em meio ao soluço
Liquefazendo emoções gasosas em líquidas.
Fundindo em meu corpo minha alma funda.
Afunda.
Vapor torpor sem pôr.
Sublimação sublime subliminar.
Só.
Nesse corpo sem exorto.
Nessa alma sem calma.
Nessa mímica de química.
Com toda sua complexa periodicidade.
Não sei lidar
É só lidar:
Sem solidariedade.
Sozinha

Sólida
Solidão.

                 
                 LOCATELLI, Caroline

25 de dez. de 2014

Eu não gosto de escrever sobre o Amor


Eu simplesmente detesto escrever sobre esse sentimento.
Sempre fica clichê.
Sempre fica piegas.
Porque todos sabem que ou termina em "Felizes para Sempre",
ou termina em morte.
Ou é feliz demais, ou trágico demais.
Mas hoje eu não pude evitar, eu precisava colocar todo esse incômodo em algum lugar.
Comecei com uma saudade imensa e uma falta de ar terrível, depois as lágrimas começaram a escorrer, umedecendo minha pele seca.
Eu precisava extravasar essa dor.
Nem se para isso, eu precisasse dar um soco no estômago de um indivíduo, para ele saber o que sinto.
E isso não passa com remédio algum, não veio de lugar algum, não é feito de átomo algum.
É apenas um vazio.
Falta de algo que nunca foi vital (o meu corpo não sabe disso).
E essa dor por dentro?
Será fome?
Fome de carinho?
Fome de amor?
Antes eu vivia muito bem sem tudo isso,
por que agora a falta de alguém me incomoda tanto?
Eu não quero viver de saudade.
Vou soprar meu amor em um saquinho e jogá-lo no lixo, espere, alguém já fez isso por mim.
Essa falta de algo imaterial,
É inaceitável para alguém cética como eu.
É inaceitável que meu âmago amargo esteja doendo tanto assim,
pela falta de algo que não existe, que nunca existiu.
O Amor.
Eu simplesmente detesto escrever sobre...

                                           
                                                               LOCATELLI, Caroline
                                             



13 de dez. de 2014

Um Poema sobre o Capitalismo



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Seria um belo poema se você não visse apenas o cifrão.

 


                                                        LOCATELLI, Caroline

      

Imagens do Eu

Naquele momento meus braços doíam , 
meu tronco, 
minhas pernas;
 minha cabeça ameaçava explodir, 
enquanto o coração, 
esse parecia querer fugir pela minha boca, 
para um lugar melhor -Um cemitério talvez.
Nada nem ninguém parecia me entender,
 até meu metabolismo queria me criticar de sua forma latejante.
Pestaneio buscando uma forma de esquecer minhas mágoas,
 busco imagens graciosas, 
que alegrem meu Eu. 
Busco imagens de um lugar onde ninguém possa me julgar, 
onde não há ninguém para me entender, 
apenas
EU.



LOCATELLI, Caroline


11 de jul. de 2014

Bala In(certeira)

   -BAAAAAM!
 
    "Um tiro mata uma estudante em São Paulo, a jovem de 8 anos estava saindo da escola quando foi atingida no peito."
 
    Saiu de um cano preto com um estalo de pólvora estourando,
    percorreu o ar rodopiando feito uma bailarina.
    Passou pelo padeiro.
    Passou pelo professor.
    Passou pelo alvo, mas não quis parar;
    Seguiu seu trajeto, voando no ar,
    a bala de chumbo foi indo, indo;
    Vendo o mundo girar.
 
    Até ser interrompida por uma menina tola,
    não soube sair da frente para o pedaço de ódio passar.
    Bem feito,
    benfazido;
    A menina caiu como uma saco de estopa no chão;
    Com seus lápis de cores rolando de sua mão,
    foi azul, foi amarelo, foi vermelho,
    todos rolando... rolando....rolando...
    Até caírem n'um boeiro.




 
 
                                                                                LOCATELLI, Caroline

19 de mar. de 2014

A Última Badalada



Escuto a penúltima badalada.

Sinto o estalido de meus neurônios já fadigados.
Minhas juntas já parecem portas rangindo.
Olho meu reflexo no espelho:
Meus olhos, antes belos, 
 hoje estão escondidos entre tanta pele plissada.
Meu cheiro é de sabão e talco;
Minha expressão é de sabedoria.
Minhas mãos pálidas e minha pele flácida, fria.
A alvidez de meu cabelo traz consigo serenidade,
a lembrança pueril de quando minha mãe o escovava
e lhe prendia uma linda fita turquesa.
Estou perdendo toda minha melanina, minha queratina,
minha mocidade.
Antes senhorita, hoje senhora, sem hora.
Repito comigo mesma:
-Você sabia que a velhice iria chegar.
Toco nesse rosto estranho,
penso se fui quem eu realmente gostaria de ser,
realizei todos os meus sonhos?
Não sei vos dizer.
Meus netos sempre me perguntam se já fui criança,
se fui jovem um dia.
Eu apenas sorrio e respondo:
-Ainda sou.
Isso  depende do "ponto de referência",
comparada ao planeta terra, sou um feto ainda.
Algumas coisas são complicadas de explicar,
a velhice é uma delas;
Alguns à temem e tentam evitá-la,
outros como eu, só aceitam e vivem felizes,
aguardando que as horas passem, 
aguardando...

A última badalada.





LOCATELLI, Caroline


12 de mar. de 2014

Alforria das Letras

Palavras  s o l t a s,
Livres da algema de coesão são
Quando estão s o l t a s,                                            As Palavras invejam as Letras                                Soltas as Palavras queriam ser.                              As Letras gozam de sua liberdade e infinidade,  Enquanto as Palavras trabalham                            Para formarem esses versos,                                  Até que o poeta lhes dê a alforria.                          Mas se por algum obséquio                                      Soltas fossem as Palavras,                                        Esse poema não faria sentido;                                Seriam apenas letras voando           
Vogais e consoantes soltos n'um alvo papel.                
                                           
    L        E        T     R   A   S                                           
                                    T   O
                                      L
                                                                                                                    LOCATELLI, Caroline